sue vAldemar em noite de luua
Tarde da noite, Lua cheia e frondosa. Seu Valdemar tomou a última dose de caninha da roça que sobrou da farra. Queria mais, mas não tinha. Ficou apoplético, ele realmente queria mais. Não teve jeito, foi comprar. Começou a bater perna na rua sem rumo, estava tão bebum que não se lembrava nem onde ficava o bar. Rondava pela praça surrupiado quando uma terrível dor lhe acometeu o bucho e a cabeça, pondo suas pernas e braços a tremer. Quem diria que cachaça, torresmo e mocotó com pimenta de tresantonte não renderia boa mistura. Cagou-se todinho e um pedaço de merda caiu como um míssil defeituoso fincado ao chão, saliente ao asfalto.
Se fosse um véi normal, morreria de vergonha, mas seu Valdemar já era vivido. A cachaça já lhe tinha feito coisa pior na juventude, coisa que se arrepende até hoje e que é imortalizada num axioma da sabedoria popular, sobre as não-posses de um bêbado. Melar-se de fezes e pregar um tolete no asfalto não era demérito a sua moral calejada. Foi-se embora cambaleando ainda atrás do bar do Cachimbo.
Passou-se a noite veranil, e o Sol já raiou cedo secando tudo quanto fosse úmido que restou da madrugada.
Ontem era quarta, hoje é quinta. O povo sai cedo pra trabalhar, o vilarejo era pequeno e dormitório. Tirando os comércios locais e as fazendas, trabalho só se via nas cidades vizinhas. Infeliz foi Antônio Mauro, empresário em ascensão, dono de uma merceariazinha careira na saída do vilarejo pra rodovia. Tão cedo pegou seu carrinho e seguiu ao ofício, mas encontrou no caminho motivo pra se irritar pela semana inteira. O pneu de Antônio Mauro passou por cima da obra de concreto fecal que Valdemar deixou secando na noite anterior e explodiu. A força foi tanta que o infelizardo perdeu a direção e capotou. Mas não só de infortúnio vive o Maurinho, saiu do acidente sem um arranhão. Sujinho e irritado, mas sem tomar uma rala.
Saído da ferragem, Antônio Mauro foi correndo ver o que diabos tinha feito o pneu explodir. "Quem foi que botou prego, parafuso e estaca no meio do asfalto logo no centro? Terrorista sacana!" Só não foi com nada disso que o merceaneiro se encontrou, foi com a titica do bebum.
Nunca naquela vilazinha alguém viu homem ficar mais bravo que Maurinho. Não estava entendendo nada, mas a zanga era certa e tanta que pegou com a mão mesmo aquele piquete de material orgânico pra ele desconhecido. Quase morreu porque passou nesse troço e ainda tomou prejuízo. Foi é correndo pra prefeitura falar com seu irmão Maurício Antão, prefeito de segundo mandato e doutor de cidade grande. Verborrajou até não poder mais, porque era irmão mais velho. Maurício Antão ouviu e acatou o murmúrio. Mandou que seus capangas descobrissem quem foi que deixou o presente infernal no meio da rua.
Todas as câmeras vistas, descobriram Valdemar e sua peripéssima. Mandaram chamar o prefeito Antão e seu irmão Maurinho, pois haviam descoberto que a vara de barro firme não era nem isso nem suas outras suspeitas. Foi nesse momento, vendo a fatídica gravação, que descobriram que era merda pura.

